quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A tristeza existe

Esse blog foi feito por mim, em 2010, ou um pouco antes, ou depois, não me recordo. Surgiu como uma brincadeira com o álcool, com textos que existiam em forma de paródia, sempre pensando em brincar com um problema que eu mesmo enfrento.

Entretanto, hoje a postagem será séria. Sem as mentiras e exageros habituais, porém com um pinguinho de verdade e muito de nostalgia e um tanto por cento de ficção.

Parei de beber e voltei tantas vezes que nem me lembro mais

Eu, um ex-bêbado que sou, conheci, nessa caminhada tão complicado (afinal é complicado mentir para si mesmo que está bem) conheci diversos bares.

Desses locais, o Bar do Tô, sempre me acolheu, com ou sem dinheiro. Não me lembro ao certo, ao longo de 6 anos da tentativa de não beber, quantas vezes ali parei... bebendo novamente.

Em uma dessas caminhadas conheci o Tô. Figura simpática, de voz leve, coração tão grande, que aceitava-me até nas piores recaídas.

Atualmente beiro os 32, mas antes disso, outros 10 ali passei. Ali passei, se aqui conto 5 vezes que falhei ao deixar de beber, somente ali falhei mais de outras 30.

Sempre foi um canto tranquilo, onde poderia me apaixonar e deixar a paixão de lado, por tantas meninas, que, talvez hoje nem existam mais em minha mente.

Toda noite, em recaída o Tô me dizia "E aí, Thiaguera! Vamos tomar uma tequila?" uma das bebidas que somente o Tô e eu tomávamos naquele bar.

No total, foram 16 anos do Bar do Tô, desse tempo, devo ter passado por lá uns 8 anos.

Tô, sempre foi esperto, sempre com a jukebox forrada de Rock, que levava a mim e meus amigos a beber, fumar e ouvir músicas boas por anos, porém, quando ele dizia que sairia, a gente saia.

E assim foi, durante esse tempo em que eu nem tentei ficar longe de beber e ele sem me servir. Já são cinco anos que não posto aqui, pelo menos.

Nesse loca, amigo, vi tanta coisa e tanta coisa vi. Assim como ele diria, ou deixaria de dizer, conforme estava seu humor e sua poesia de bar.

Com o futebol, cansei de contar quantas vezes e com amigos ali fui.

Mas o Toninho tinha algo especial, ninguém conseguia ficar bravo com ele. E quem ficasse, por favor, nós expulsávamos.

Entre todas presepadas que fizemos, na última semana, Toninho fez a maior. Despediu-se dos amigos, da Dona Gil (sua companheira nos últimos 14 anos) e saiu, sem destino. Nunca teve destino esse homem.

Porém, nós, ao calar da noite ou no começo do dia, como uma bussola nos guiávamos e voltávamos. Sempre para ouvir o seu assoviar de voz chamar o nosso nome.

Esse era o encanto, entende? Quem diabos te chama assobiando?

Ele, Toninho chamava. Ele te ligava para saber como você estava, se estava feliz ou triste, se queria ou não beber, se preocupava contigo, além do esperado.

Tinha um coração do tamanho do mundo, ou maior.

Infelizmente, seu coração não foi maior que a doença que o acometeu. Um infarto fulminante nos tirou o Toninho, que há 16 anos tratava com a mesma simpatia os clientes antigos e os novos.

Em minha jornada etílica, sinto que algo morreu, assim como seu coração parou de bater, para minha vontade de beber, em um lugar como se fosse a própria casa.

Hoje, ao sentar, não ouço mais a voz assobiante perguntando se o "Thiagueira" quer algo mais.

Deveria ser, ao menos, para quem gosta de bares, o nosso herói morrer. Ele morreu, levou consigo muita felicidade, deixou saudade. Não é mais possível ir ao Bar do Tô e não chorar sozinho, ao olhar ao redor o silêncio que sua voz ecoa.

Seja onde estiver, Toninho, uma parte de mim, de minha risada, de minha vontade de beber morreu. Acredito, o maior incentivador de minha bebedeira, hoje se torna alguém que me faz querer não beber. Talvez essa fosse sua missão, talvez não.

A verdade, amigo, Tô, onde quer que esteja, onde quer que eu beba, lembrarei de sua voz, chamando, Thiagueira,

Descanse em paz, meu amigo. Um dia estarei ai.

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